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10
Jul
2017
12:49

Grupo Emú apresenta espetáculo sobre Mercedes Baptista, uma das maiores representantes da cultura negra do país

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Foto: divulgação

O espetáculo Mercedes nasceu de uma pesquisa do Teatro Negro, feita pelo Grupo Emú, e retrata a história de Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra a compor o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e grande incentivadora da dança afro-brasileira pelo mundo.

Mercedes já levou ao teatro mais de três mil espectadores. Participou de importantes Festivais e Mostras brasileiras, como a Mostra Benjamin de Oliveira, em Belo Horizonte, e a Mostra Olonadé, da Cia dos Comuns.

A bailarina inspiração para o espetáculo foi a pioneira da dança moderna brasileira e responsável pela disseminação das alas coreografadas do carnaval carioca. No espetáculo é feita uma viagem pela vida da artista, resgatando a da cultura negra brasileira.

O espetáculo agrega manifestações artísticas como teatro, dança e música, utilizados como símbolos poéticos que relacionam a formação clássica e o conhecimento das danças africanas. Mercedes narra a construção da identidade negra na dança brasileira, contada a partir de histórias reais e fictícias da personagem-título.

O Grupo Emú é formando por jovens artistas interessados em investigar e aprofundar uma ótica negra no cenário artístico a partir da pesquisa dos movimentos coreográficos criados pela bailarina, utilizados como signo corporal interpretativo.

Para Iléa Ferraz, representante do grupo, o espetáculo Mercedes traz uma profunda reflexão sobre a valorização dos artistas negros na dança. Destacando a cultura afro-brasileira com grande parte da história do Brasil. Confira:

O que você achou do convite para participar da edição 2017 do X-Tudo?
ILÉA FERRAZ - Eu fiquei muito feliz pela seleção do espetáculo Mercedes para esse projeto, pois além de ser o reconhecimento do trabalho do Grupo Emú, é o reconhecimento da história de uma personalidade importante da cultura brasileira, Mercedes Baptista. Ela preservou e contribuiu para a divulgação da dança negra no Brasil. Estou muito honrada e fico feliz de estar participando com outros artistas desse projeto. O X-Tudo SESI Cultural, que esse ano fala sobre a cultura negra, será uma grande oportunidade de a gente ter um panorama do que está acontecendo nas artes negras no Brasil.

Você vai se apresentar em toda a rede de teatros, no grande Rio e no interior. O que o público dessas regiões pode esperar da apresentação?
IF - O que o público vai ver é a história de uma bailarina, uma artista negra, que dedicou sua vida ao seu fazer artístico. Irão conhecer os conflitos e as contradições que traduzem a realidade do artista negro no Brasil. Uma artista que por causa do racismo não pôde ser a bailarina clássica que sonhou desde criança. Mas, enfrentou tudo isso criando um balé negro e se tornando uma das precursoras e grandes incentivadoras da dança negra no Brasil. Eu acho que esse espetáculo traz, sobretudo, uma reflexão. Até quando nós, artistas negros, vamos nos preparar para ocuparmos determinados espaços e esses espaços não vão nos receber? Espaços públicos, como o Theatro Municipal. Até hoje, a dança clássica no Brasil é uma arte que, na verdade, é excludente. Não se vê bailarinos negros, e quando eu falo bailarinos negros, eu falo de bailarinos negros bem pigmentados, negros, retintos, você não vê dançando no corpo de baile do Theatro Municipal. Que país é esse que tem 53% da população negra e isso não tá refletido na sua arte, nos seus espaços de arte oficiais? Um bailarino negro não pode se formar e ficar apenas dando aula. Ele precisa ocupar o espaço para o qual se preparou. Eu acho que esse espetáculo levanta essa reflexão e é por isso que o faço.

Qual é a importância de instituições como o SESI promoverem iniciativas que valorizem a cultura negra? O que você acha do tema deste ano, que aborda a cultura negra e sua importância na sociedade?
IF - É um grande apoio o SESI estar participando dessa reflexão sobre a cultura negra, pois é muito importante incentivar as artes e a cultura no Brasil. Essa parceria é um ganho. Ganha a arte do Brasil no todo e a sociedade brasileira, por conta da urgência da discussão. A abordagem do tema é relevante para dar notoriedade a nós, que encontramos sempre muitas dificuldades, pois não temos acesso aos grandes patrocinadores, não temos acesso a um percentual grande dentro dos resultados de editais. Então, ter o SESI como parceiro nesse projeto, tendo sido a cultura/ arte negra, a arte negra escolhida como tema desse ano eu acho que já é um grande avanço e traz uma grande reflexão. O que eu espero é que o SESI continue trazendo essa reflexão em todas as edições. E que tenha um percentual grande de espetáculos pensados na cultura negra, sobretudo que seja feito e produzido por artistas e produtores negros. Que nós, os donos dessa história, possamos contá-la.

Promover a diversidade artística é um dos objetivos do festival. Como é participar de um projeto que reúne música, teatro, dança, exposição, oficinas e debates?
IF - É muito bom. O Grupo Emú é um grupo de jovens artistas e produtores que estarão ocupando esse espaço de reflexão e de crítica da nossa sociedade. Importante, pois teremos outros grupos e um intercâmbio grande de artistas. Espero que esse movimento realize novos espetáculos, gere ideias. O grande barato de você reunir artistas que estejam voltados para o mesmo pensamento, para a mesma ideia, é a possibilidade de promover novos espetáculos e novas canções, de incentivar artistas visuais e de gerar inquietações. Tudo isso faz a gente pensar essa sociedade de maneira mais plural, mais inclusiva. E não gosto de falar das minorias, mas das pessoas, dos grupos sociais que ficaram escondidos, que ficaram à margem da sociedade no campo das artes.

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Foto: divulgação